AVISO: O post á seguir, requer muita paciência, por ser longo e depressivo.

Oi gente, mais uma vez gostaria de agradecer. Á cada uma de vocês, á cada palavra, ao tempo que levam em ler o blog, e ainda por serem tão compreensíveis nos comentários! Tudo isso me motivou a tomar uma decisão, que para mim, é a mais difícil que eu poderia tomar. 

E explicarei: já passei por dois psicólogos e um psiquiatra diferentes ao logo dos últimos anos, e não consegui me adaptar, sempre me sentia hostilizada com todas aquelas perguntas diretas. Mas, a última psicóloga com quem passei, que na verdade é uma amiga de faculdade, se mostrou bem compreensível e não fazia perguntas em tom de julgamentos, o que me fez ter uma confiança muito grande, mas não o suficiente para assumir meus "traumas". Uma vez escrevi uma carta, contando um pouco de mim. Minha intenção era após escrever, mostrar á alguém. Resolvi enviá-la á ela por e-mail, mas surpreendentemente, ela se recusou. Disse que existe um protocolo, que ela quer é justamente me fazer assumir esses sentimentos e falar abertamente sobre os mesmos, que eu poderia ler o que eu escrevi para ela, mas que esse "contato", deveria acontecer pessoalmente, até mesmo para ela avaliar minhas emoções e me fazer falar, colocar para fora o que venho sentindo. Resumindo, me recusei, não me sinto preparada em assumir, muito menos dizer á alguém, o que já se passou comigo. Já não tinha mais como justificar as minhas atitudes, se não conseguia nem ao menos assumi-las. 

Dado tudo isto, resolvi compartilhar com vocês o que escrevi, as coisas se tornam mais fáceis sem o contato que a psicóloga disse fazer parte de um protocolo,  e mesmo que ela pense que encarar tudo isso falando abertamente me faria melhor, eu prefiro dar um passo de cada vez. Em janeiro deste ano, tomei coragem em escrever, e escolhi vocês para compartilhar a carta. Quem sabe daqui outros 8 meses, eu tenha coragem, em finalmente falar sobre tudo isso, para quem sabe um dia, superar! 

Segue a carta que escrevi:


 "São Paulo, 27 de Janeiro de 2013. Ás 05 hrs 04 min.

Eu realmente não sei como começar esse e-mail, e não consigo definir o que busco com o mesmo, poderia resumir que simplesmente quero ter uma sensação de "alívio", que aliás, há muito tempo não sinto.  Peço gentilmente um pouco de paciência. Vou tentar me apresentar e resumir um pouco da minha história. Tentarei ser breve:



Meu nome é Luiza Marchi, tenho 19 anos, nasci e vivi a maior parte da minha vida numa pequena cidade da zona da mata mineira.
Meus "problemas" com meu corpo, começaram muito cedo, embora eu não tivesse consciência disso. Dos 6 aos 11 anos, eu sofri violência sexual inúmeras vezes, por uma pessoa muito próxima dos meus familiares, além de várias ameaças, sem ninguém nunca ter descoberto. Tive muito medo, ficava muito confusa, e quando finalmente me livrei do convívio diário do mesmo, comecei a sentir outros sentimentos, em maior intensidade a culpa e muito repúdio ao meu corpo. Aos 12 anos vivi minha primeira "apaixonite" por um garoto mais velho, pouco interessado em meninas novas, consequentemente não me correspondeu como gostaria. Hoje, tenho maturidade para reconhecer que dificilmente um garoto de 17 anos se interessaria por uma menina de 12, e que todos temos o direito de não "querer alguém", mas isso não se aplica á minha mentalidade da época. Me sentindo culpada também por isso, assumi o pensamento que precisava emagrecer para me livrar de todos esses sentimentos. Coincidentemente, nessa mesma época, meados de 2006, estreou a novela Páginas da Vida abordando um assunto até então desconhecido para mim, a bulimia. 

Se o intuito da novela em levantar polêmica á esse assunto era prevenção e alerta da doença, para mim teve efeito contrário, o tão popular assunto se tornou uma possibilidade em minha vida, um 'escape' para todos aqueles sentimentos que sentia. Costumo dizer, que quando vomitava estava colocando para fora não só o que comia, mas toda minha ansiedade e culpa, o nojo que sentia do meu corpo por estar uns quilos á cima do ideal e o silêncio sobre a violência sexual que vivi por anos na infância.
Apesar de muito difícil, especialmente para mim, que sempre odiei vomitar, encontrava o isentivo que precisava em comunidades do orkut pró ana\mia, onde tinha acesso á dicas e experiência de outras meninas, por exemplo como tornar o processo menos difícil e quais alimentos eram mais fáceis de se vomitar.

Após alguns meses, os desmaios eram constantes e vomitar habitual - sempre após as refeições - independente do local: escola, casa de amigos e familiares, restaurante, etc... 
O que tornou óbvio para meus pais que eu era bulímica. Ao contrário da maioria das famílias, não tive apoio ou ajuda, minha mãe me acusava de ser influenciada pelo que via nos meios de comunicação e que certamente esse comportamento era típico de uma adolescente rebelde. Vez ou outra ela dizia "é só uma fase, não é necessário psicologo, tirar o computador e o celular por umas semanas resolve..."
Acho que não é necessário dizer que os castigos que me eram impostos não resolveram, e mais do que nunca me sentia sozinha.
Quando passamos por qualquer situação que nos delimita e nos oprime, não imaginamos quão forte podemos ser, até que a única alternativa é ser forte, foi assim que me livrei temporariamente da bulimia. Foram 3 anos de "idas e vindas", de lutar sozinha contra todo peso que carregava, de recaídas, de ter a pressão arterial oscilando sem recorrer á ninguém. 

Com 15 anos, vivi outros conflitos familiares, a empresa da minha mãe quebrou, o endividamento estreitou a relação dos meus pais, que resolveram se separar. Vi minha mãe sofrer muito durante essa fase. Ela estava visivelmente depressiva e totalmente descontrolada, dormia todas as noites no sofá, algumas vezes sem banho mesmo; fumava vários maços de cigarro por dia, perdeu totalmente a vaidade, além de sofrer com constantes hemorragias menstruais. Até que ela teve um insigth, e da noite para o dia resolveu que iria se mudar para São Paulo e tentar os negócios em uma cidade tão diferente da nossa realidade. Confesso que foi assustador, muitos da família acharam que tudo isso era um declínio depressivo e poucos apoiaram. 
O que surpreendeu foi que um tempo depois de se mudar para outro estado, minha mãe estava muito entusiasmada e confiante, cheia de planos e argumentos que acabaram convencendo meu pai á também se mudar para SP. 
Eu sentia muito a falta dos meus pais, mas de uma forma isso foi uma inspiração para que eu também superasse minha doença. Eu sei que ninguém se cura de uma depressão da noite para o dia, muito menos de um distúrbio alimentar, mas se você mudar sua perspectiva, tiver um motivo, insigth ou inspiração, você começa a mudar, as coisas fluem positivamente, e por mais difíceis que pareçam os obstáculo, a vontade de superar é maior.
Foi essa inspiração que me motivou a tomar a decisão mais difícil da minha vida, abandonar escola, amigos, rotina, paixões, família, lugares e problemas, e ir morar com meus pais.

O meu único engano era achar que mudando de estado, deixaria os problemas que tinha na minha cidade natal. Eu acreditei tanto nisso, que minha adaptação foi rápida, vim á São Paulo com vontade de mudar, e mesmos nas situações mais inovadoras - para não dizer estranhas - eu encarava tudo da melhor maneira possível.
E assim se passaram 3 anos de que estou em SP. Juro que gostaria de terminar esse e-mail aqui, dizendo que a narrativa que acabo de contar é uma história de superação. 
É verdade que toda essa excitação pelo novo, a comodidade do metrô, acessibilidade dos fest foods, a nova rotina, novos lugares e convívio com pessoas tão diferentes das que estava acostumada, me fez esquecer da minha conturbada infância e da bulimia, mas não fez com que eu valorizasse meu corpo, não me ensinou a me amar e não me trouxe a vontade de me cuidar. Minha aparência se tornou indiferente, não me importei com quantos quilos estava engordando ou quantos números a mais estava vestindo.

Uma das melhores coisas de SP, foi ter conhecido meu namorado, ele é uma pessoa incrível, nos identificamos muito, gostamos de ouvir as mesmas bandas, temos o mesmo gosto para filmes e livros, nos fazemos rir o tempo todo, e o que eu mais gosto na nossa relação é a liberdade que temos de sermos sinceros um com o outro. E foi com essa liberdade que ele sugeriu que eu emagrecesse, sutilmente, disse que isso melhoria minha qualidade de vida. Ele é tão doce e especial, que não me revoltei contra ele, não fiquei brava ou triste em relação ao seu pedido. 
Após essa conversa, me olhei no espelho e senti uma culpa tão grande e me sinto tão impotente em relação á isso. Como eu pude atropelar todo o processo de recuperação dessa maneira? Como pude ser tão estúpida á ponto de achar que conseguiria me livrar de tudo que eu sentia apenas mudando de cidade? 
A realidade é que eu não me livrei de nenhum desses sentimentos, ao longo dos anos eu fui acumulando-os e colocando outras coisas irrelevantes como prioridade. 

Hoje eu sinto que tudo que construí nos últimos 3 anos foi feito de papel e não resistiu ao medo, culpa, ansiedade, insegurança e traumas do passado, e simplesmente desmoronou. Estou me sentindo como a mesma menina solitária, vivendo no silêncio e tentando colocar tudo isso para fora vomitando. Depois de tanto tempo "recuperada", eu me sinto muito fracassada por me sentir tão gorda e feia, queria que fosse só uma recaída, mas já não consigo ter relação sexual com meu namorado sem sentir nojo de mim mesma ou comer qualquer coisa sem culpa.
Espero todos os dias por um novo insigth ou motivo, não mais para mudar, mas sim para superar...

p.s1: Prometi que seria breve, mas o número de linhas ultrapassou minhas expectativas;
p.s2: Ao digitar esse e-mail, me peguei chorando, preferi não revisá-lo, já que "quebrar" o silêncio é tão difícil pra mim, então peço desculpas se houver falta de coerência;
p.s3: Obrigada pela paciência se tiver lido até aqui."

                                                                                                         
Comentários
7 Comentários

7 comentários:

  1. ler o seu post tambem me fez chorar, gostaria de te aconselhar mas n tenho experiencia de vida suficiente, e sei que palavras nao vao te confortar, mas sei que todas temos problemas que nos levaram a desencadear TA, espero que vc continue sempre com o blog para que eu possa ler mais post´s gigantes no seu processo de superaçao. força

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  2. Nossa, na verdade não sei o q dizer, como as pessoas podem pensar q isso e brincadeira, somos todas uma família e nunca iremos te julgar, obrigado por nos confiar esse textO, só quitéria poder dizer algo animador, mas sabes q minha fase reabrem não e boa, mas nem se compara aos teus problemas.
    Saiba q pode sempre contar comigo, e q te desejo toda força q precisa pra série em frente.
    Fique com Deus.

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  3. Amei seu post confesso que é bem triste de se ler ...mas mostra sinceridade em tudo que vc diz ... não é facil viver tudo que vc viveu é muita coisa pra uma criança só...a unica coisa que posso te dizer é que se precisar de uma amiga estou aqui! É complicado mesmo...mas com apoio vc vai conseguir se superar=]

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  4. Olá querida Luiza!
    Puxa... sabe, ler esse post me despertou várias sensações, mas uma coisa que ficou clara nele, foi que você é muito forte dado tudo o que passou. Não tenho ideia do quão difícil deve ser pra você se abrir dessa maneira, e acho que todas nós aqui, devemos nos sentir gratas por nos julgar dignas de confiança e nos contar sua história.
    Sabe, eu desejo de verdade que no futuro eu venha ler um post teu, contando que dia após dia está superando e aprendendo a se amar.
    Flor, só te deixo um pedido: quando se olhar no espelho, saiba que lá está refletido muito mais do que apenas o seu corpo, mas lá está o reflexo de uma mulher forte, especial, alguém que luta todos os dias por uma felicidade que é direito dela.
    Sei que deixo aqui apenas palavras, mas saiba que são sinceras, certo?
    Beijos ♥

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  5. Oi Lu ...serio que vc vem pra BH ???? Eu moro aqui sim *-* se vc quiser a gnt pode se encontrar,seria legal cv com alguém que entende a gnt ...vai ficar quanto tempo ???

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    1. Vou dia 23 e volto dia 25, vou só pro aniversário do meu afilhado! Vai ser corrido, mas realmente gostaria de ter um tempo pra nos encontrarmos. Meu email é luhgp_s2@hotmail.com, vamos nos falar por lá, e trocar telefones. Rsrs

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  6. Mais vc nunca contou pra ninguém?

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